Igreja de São Francisco de Assis em São João del-Rei

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Igreja de São Francisco de Assis em São João del-Rei


Grandiosa concepção que a arte vazou em formas suavíssimas, este templo, com dilatadas dimensões e de incomparável beleza, representa na parte principal de seu corpo ampla figura quase elíptica, rigorosamente proporcionada à sua extensão e à sua altura. (93) (94)


Medindo 35 metros da porta principal ao arco-cruzeiro, sobre 13 de largura média, bem como 16, desse arco ao retábulo, por 8, seu recinto oferece vasta área para a congregação dos fiéis. A grande elevação da igreja, que, do pavimente ao teto, atinge 22 metros, concorre assas para sua imponência.


Inteira de alvenaria, esta construção, iniciada em 1774, em substituição à antiga capelinha, repousa, até a altura de um metro, em todo o correr de seus espessos muros, sobre bem talhada cantaria nua, enquanto no alto, arrematando as paredes do admirável contorno, em que esplêndidas pilastras se encastoam, bela cimalha de granito se desenvolve em harmonioso balanço. Nesta se apoia a cobertura que, em correspondência à curva das paredes, cai em convexo dorso elegante sobre o inextricável madeiramento do edifício colossal (95).


Aproximadamente em frente aos focos da figura geométrica a que mais se assemelha a obra, da grande nave para os lados, duas a duas, quatro amplas portas se rasgam, com ombreiras, arco e limiar de pedra azul artisticamente polida. Sobre estas, igual número de alongadas janelas do mesmo cabedal e com o mesmo apuro, lhe ilumina o espaçoso interior, para onde, entre elas, ainda outras, sendo uma em cada face, também de caprichosos contornos curvilíneos, se abrem.


A capela-mor, de forma quadrangular, com linhas e ângulos retos, ao contrário do que em tudo mais se verifica, é guarnecida em seus cunhais posteriores por pilastras graníticas cujos capitéis confundem seus arabescos com os do entalhamento que apoiam. Também aqui, idênticas a essas outras, duas janelas de cada lado e duas ao fundo, ornamentam e arejam esta parte da construção.


A fachada da igreja, suntuosa e magnificente, sonho que o gênio cristalizou na pedra, tem, com efeito, o esplendor indefinível de um arrojado ideal artístico plena e faustosamente atingido em toda sua majestade e em toda sua pureza.


Divide-se ela em duas partes bem distintas: o frontispício propriamente e as torres que o ladeiam. Aquele, destas se destaca, formando a parte dianteira da grandiosa edificação, de cujo concerto arquitetônico sobressai como uma peça do mais fino lavor. Emoldurado de rígidas pilastras de magnesita, de gigantescos pedestais e de formosos capitéis, que se elevam até a cornija da frontaria, ele se constitui do pórtico monumental, a que notável conjunto escultural se sobrepõe, de duas custosas janelas que dão para o coro, de grande óculo central que, entre estas, acima de suas padieiras, comunica ar e luz ao interior do templo, bem como de sobranceiro frontão que no centro da fachada se eleva.


O pórtico empolga e domina. As ombreiras se aprumam em estriados monólitos, guarnecidos de belas colunas em que se encastoam. Estas se erguem no imponente conjunto da pedra multiforme a se desenrolar na complexidade ornamental de figuras geométricas entrelaçadas em inspirada fantasia e a palpitar nas folhas, nas flores e nos anjos que tufos de festões engrinaldam nos fustes e nos capitéis desta esplêndida moldura. Ao alto, sobre soberba voluta que no topo de cada uma flutua, assenta um anjo alado, que, erguendo para o centro, em atitude de enlevo, uma das mãos, na outra traz a caveira, o eloquente símbolo de eternas verdades que o cristianismo sabiamente prega.


O arco primoroso, em que se riscam flexuosos traços paralelos em delicadas linhas impecáveis, ajustado às ombreiras da maravilhosa entrada, ostenta ao meio de sua face dianteira bela ornamentação em cujo caprichoso entalhe desabrocha artístico florão que envolve, como nos vértices de um triângulo, três encantadoras cabecinhas de anjos magnificamente esculpidas. Sobre essa arcada, além de profusas ramagens tropicais que lhe enfeitam os lados, rico frontal desse exuberante emaranhado emerge como aparatoso consolo para as joias raras que bordara o privilegiado cinzel (96).


Cristo do Amor Divino


Conjugados às volutas e às contra-volutas que, apoiadas ao gracioso arco desse frontal, se encurvam, dois prodigiosos escudos elipsoides sublimam na filigrana de pedra portentosamente estilizada. O da direita do edifício, impressionante emblema da comunidade franciscana, em primorosa incrustação, mostra, chagados, os pés, as mãos e o coração em cuja base uma pequena cruz completa o maravilhoso símbolo. O da esquerda, reproduzindo as armas de Portugal, lembra o poderio do Reino, que, na pretendida origem divina de suas dinastias, podia ali, sem profanação, alardear-se em toda sua dilatada latitude!


Superposta a esses escudos, como os cingindo, acúlea coroa, aberta na fina estrutura de delicada esteatite, os prende em cima, enquanto o cordão da estamenha de São Francisco, neles entrelaçado, deixa ver na trama sutil do entretecido das borlas o fio sedoso que a buril trançou o extraordinário sirgueiro.


Aos lados, no terço superior desses emblemas, equilibrando-os, dois formosos anjos magistralmente os exornam, ao passo que, no terço inferior correspondente, magníficas asas de leves plumas, finamente bordadas, em espalmado voo através as regiões da mais piedosa imaginação, liberando todo o esplendor arquitetônico dessa delicada relíquia, recordam a grandiosa aparição do Monte Alverne.


Para cima, oblonga medalha em aro ricamente lavrado alteia sobre a coroa de espinhos, da qual, na reprodução simbólica da comunidade, emergem os braços cruzados, que pousam na moldura desse primoroso quadro. Do fundo dele, por entre serafins, suavíssima, exsurge a imagem da Imaculada Conceição, do alto iluminada da radiosa representação do Espírito-Santo. Encimam todo esse concerto de arte e de fé a coroa da Virgem e ondulante faixa fulgurante, onde esplende a excelsa sentença: “TOTA PULCHRA ES MARIA ET MACULA ORIGINALIS NON EST IN TE”.


Dominadoramente, ao centro, se eleva o frontão do templo. É uma peça de alta inspiração e de notável acabamento, que, nos termos da deliberação do Definitório de 3 de Novembro de 1809, se deve ao gênio do alferes Aniceto de Souza Lopes. Graciosamente ajustada à curva que envolve a meio o arco monumental desenrolado do aparatoso entablamento da frente, nela se assenta sua base, que também para os lados se estende até corresponder às linhas das grandes pilastras que encaixilham, para baixo, o frontispício. Para o alto, as orlas laterais do frontão se desdobram na opulência das curvas e contracurvas, das volutas e das espirais, em cujo entrelaçamento variados ornatos se assentam, até a culminância do vértice, onde, sobranceira, se ergue a cruz pontifícia.


No campo do tímpano, reproduzindo o portentoso episódio do Monte Alverne, São Francisco, no arrebatado enlevo da mais sublime contemplação, no êxtase miraculoso dos santos, recebe de Jesus, que, nas asas de sua infinita bondade, paira entre nuvens fulgurantes, as chagas do Salvador, que redimem.


As torres se dispõem harmoniosamente nos flancos da fachada. Aos gigantescos cilindros que as formam e em que se embutem grandes colunas que, esplendidamente ornamentadas, tocam à cúpula abalaustrada do alto, o vasto entablamento da frontada fortemente abraça em contornos de estupendo efeito. Nas amplas sineiras, garganta secular do templo, abertas nas alturas, balançam grandes campanários de bronze, que festivamente cantam e suavemente plangem.


No intradorso do lintel da porta principal, esculpido em traços geniais, o Santo Sudário, recordando aos que por ali passam o sofrimento de Jesus e a dor inigualável de Maria Santíssima, em sublime filosofia, a todos predispõe para o sacrifício e para a penitência, tão compatíveis com o espírito do Seráfico Patriarca.


Transpostos os luxuosos umbrais, o interior domina e arrebata.


De cada lado uma porta que, como as outras da igreja, acima dos arcos, se almofada de preciosos adornos. Dão estas para as escadarias, verdadeira rocha em caracol, que vão ao coro e às sineiras.


Mais alguns passos apenas, e, por sobre a cabeça de quem ai está, o arco abatido, obra também deste mesmo artista, em que se apoia o coro, repete o milagre que sustivera a pesada cantaria do Mosteiro da Batalha, quando mestre Afonso Domingues, impávido e sereno, debaixo da abóbada monumental, fazia retirar os simples que tramavam o arcabouço imenso do teto da sala do capítulo.


Aqui, à surpreendente visão do interior, se nos impõe indeclinável impressão da grandiosidade de seu conjunto. Em cada parede lateral, sobre amplos pedestais de maciços blocos azuis, altas pilastras de madeira nelas encaixadas e de bem decorados capitéis, apoiam, no alto, ondulante e graciosa cimalha que guarnece o teto. Este, avantajada abóbada elíptica, que resguarda os primores arquitetônicos da grande nave e onde se hão de refletir, pelo buril ou pelo pincel, iguais encantos, tem apenas, no centro, rico florão entalhado, cujo custoso lavor bosqueja o acabamento dessa, ainda assim, formosíssima cúpula.


De um e do outro lado, entre as portas que se abrem para a nave principal, dois portentosos altares, além dos que se dispõem nos ângulos que cada parede lateral forma com a do arco-cruzeiro, magistralmente se talham na exuberante floresta de cedro em que as ramagens se entrelaçam nos troncos das colunas, de cujos capitéis rebentam folhas e desabrocham flores de perene frescor.


Os dois primeiros – o de São Francisco abraçado a Jesus Crucificado, segundo célebre quadro de Murilo, à esquerda, bem como o de Santa Margarida de Córtona em frente, se erigem em pilares de profusa decoração, que formam o grande nicho e, com guarnições de finos recortes, dos lados, outros pequenos de imagens a eles proporcionais.


Os dois altares imediatos, na mesma ordem – o de São Pedro de Alcântara e do outro lado, o de São Lúcio e Santa Bona, também de variados lavores de talha, têm, sobre peanhas de belos ornatos, ricas disposições para santos de menor altura. (97).


Os do arco-cruzeiro – o de São Luiz, rei de França e à direita o de São Francisco, são esculpidos com os preciosos cabedais da mesma imaginação. Neles, os consolos em que pousam as imagens menores se guarnecem aos lados de caprichosas colunas fletidas e, como nos demais, de bordadas pilastras.


Entre os dois altares, de cada lado, como que formando com eles uma peça, se destaca, todavia, a bela obra de talha que constituem os púlpitos. Na tribuna do da esquerda, em painel, que na frente se cerca de custoso desenho, belo relevo representa a Anunciação, enquanto, em quadros, aos lados, se esculpem os evangelistas São João e São Lucas.


Igreja de São Francisco de Assis em São João del-Rei


No que a este fronteia, com a mesma decoração, se veem, no painel da frente, Jesus, que tem na mão esquerda o globo encimado da cruz e que, com a direita aponta para o céu bem como São Mateus e São Marcos aos lados. Rematam o tornavoz do primeiro, Moisés, iluminado da graça divina, a mostrar as tábuas da Lei e do segundo, Inocêncio III, que aprovou os princípios da austera regra.


O arco-cruzeiro é de arrebatadora suntuosidade. Baseiam-no majestosas colunas poligonais que se talham juntas ao transepto, apresentando três lindas faces, que nos rígidos pedestais se bordam de delicados traços e que nos fustes ondulam em suaves concepções geométricas. Em cima, nos capitéis de esverdeada magnesita, em que o artista perpetuou áticos primores, se assenta bem ajustado arco de granito.


A capela-mor, assas espaçosa, com toda a obra de talha dourada, requinta de grandiosidade e de perfeição em seu todo e em suas minuciosidades.


A cantaria do presbitério, tanto no plano superior, quanto em seus degraus, foi, como todo o pavimento da igreja, objeto de esmero e arte.


Duas estimadas telas atribuídas ao pincel de Alexandre Barri, enriquecem este escrínio de valores artísticos: uma, a do lado do evangelho, representa as trevas do jardim das oliveiras, o beijo maldito, a traição hedionda, o crime horrendo, para afastar Jesus dos homens; a outra, em frente – a “Instituição”, recorda a luz, o amor, a Eucaristia, que entre os homens Jesus encerra.


O altar-mor impressiona pelos áureos bordados do frontal, do retábulo e do tabernáculo.


Arqueando sobre ricas colunas helicoides enroladas em espirais de flores, que formam os nichos onde se veneram Santa Isabel, rainha de Portugal e Santa Rosa de Viterbo, esplêndido frontão se aplica na parte do teto, que para o altar se encurva enlastrado de ramagens de ouro. Nos esplendores esculturais dessa aplicação, refulgem as três pessoas da Santíssima Trindade.


Além, para cima, no pedestal augusto, que, em meio o coro de serafins, se ilumina para a Excelsa Protetora dos franciscanos, radiosa se destaca a belíssima imagem de Nossa Senhora da Conceição.


Mais para o alto, a culminância do trono auri-entalhado simbolizando a bendita montanha em que o Seráfico Patriarca experimentou o piedoso e imenso júbilo de participar, pelas chagas, do imenso sofrimento de Jesus. Aí, na contemplação da imagem do Senhor do Monte Alverne, sentindo extasiar-nos a sublime austeridade das manifestações divinas, de Joelhos, balbuciamos uma prece bem dentro do coração do templo, que, sobranceiro através dos séculos, é uma eterna oração de fé (98).


Notas:

93. A 8 de Março de 1749, se fundou no Rio de Janeiro, a Ordem Terceira de São Francisco de Assis de São João del-Rei, realizando aí, na Casa Capitular do Convento de Santo Antônio, sua primeira Mesa, constituída por Frei Agostinho de São José e por outros, entre os quais o Capm. Antônio da Silva e Souza, que, nesse mesmo dia, obteve patente para a ereção da primitiva igreja. Esta, a 18 de Outubro do mesmo ano, véspera de São Pedro de Alcântara, dia em que se reunia a primeira Mesa da Ordem, aqui, foi benta pelo Pe. Manuel Pinto Ribeiro, sobrinho do devotado irmão Silva e Souza.
94. O risco deste monumento, consoante registro de 8 de Julho de 1774, às fls. 105, v. e 106 do livro de pastorais, atas e termos, “foi mandado fazer à Vila-Rica para a fatura da nova Capela desta Venerável Ordem e pelo qual risco se tinha dado de prêmio a quem o fez a quantia de sessenta mil réis”. Do termo de 11 de Setembro de 1785, nesse livro, às fls. 133 v. e 134, consta, com uma emenda feita à margem, que diz – “Francº Lxª”, em substituição a “Miz”, que na mesma linha está riscado, haver a dita planta sido feita por Antônio Francisco Lisboa. As letras da emenda e do texto, que não são semelhantes, parecem contemporâneas. Com efeito, dando esse documento notícia dos trabalhos da Mesa Administrativa da Ordem, nessa reunião, diz que, “quanto ao segundo ponto, declaram da mesma sorte que foi geralmente aprovado o sobredito risco que serve de suplemento ao de Antônio Francisco Lx.ª”.

Também, no estudo comparativo do Carmo de Sabará e de S. Francisco de Ouro Preto com o primitivo risco de São Francisco de São João del-Rei, o Dr. Lúcio Costa, distinto arquiteto do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, assinala que diversos ornatos e remates da empena daquela igreja bem como traços das ombreiras principais dessa outra, trabalhos de Antônio Francisco Lisboa, igualmente se encontram no aludido risco que Francisco de Lima Cerqueira na execução desta modificou, parece que para melhor.

A igreja está edificada na encosta do morro do Bomfim, justamente ao fundo do Largo de São Francisco, caprichosamente ajardinado.

Em frente à seção plana, conquistada ao suave declive do terreno, arrimando-a, se apruma, em graciosas curvas consoantes ao estilo da edificação, custosa muralha de pedra azul, traçaria de finos desenhos e de delicadas flores. É uma rica plataforma, na frente, guarnecida do mesmo material e sobre cuja orla bela balaustrada de mármore serpeia.

Dá acesso ao plano em que está a igreja ampla escada, cujos degraus até o primeiro, patamar, paralelos à fachada do templo, se bifurcam em curvas que sobem ao segundo, de onde o último lance da escada, na mesma disposição do primeiro, alcança o nível do suntuoso edifício.

95. Destacada do corpo da igreja, tem ela em sua parte posterior esquerda espaçosa sacristia que, não obstante haver sido feita como provisória, conforme consta de assentamento no livro da Ordem, citado, fls. 133 e 134, é de boa alvenaria de pedra, tendo as ombreiras das portas e as correspondentes peças das janelas do mesmo material e de ótimo acabamento.

Bem forrada e admiravelmente assoalhada de grandes losangos de pedra de duas cores, é esta dependência servida de luxuoso lavabo, maravilhosamente esculpido em magnesita azul-esverdinhada.

Para diante, aquém da sala das deliberações do Definitório ao fundo, se encontra a capelinha do Santíssimo Sacramento com bem talhado altar.

96. A tradição oral proclama como sendo de Antônio Francisco Lisboa, o genial Aleijadinho, também, a execução das maravilhas deste suntuoso templo. Infelizmente, não há notícia do primeiro livro de recibos de despesas da Ordem no qual Samuel Soares de Almeida, velho pesquisador nestes assuntos, afirma ter visto verbas de pagamentos feitos ao insigne artista por trabalhos aí realizados. Só o livro de termos e de atas de reuniões da Mesa e do Definitório, além de outros carecedores de importância para o caso, aí existe.

É também certo que alterações na traça e na execução do monumento foram feitas pelo habilíssimo mestre e prodigioso canteiro Francisco de Lima Cerqueira (termos de 15 de Fevereiro de 1784, de 11 de Setembro do ano seguinte e outros – Livro de atas, fls. 133 e 134), a quem a Mesa de 1785 impusera a “condição de fazer ele, por suas mãos, toda a lavragem de seu ofício, que fosse mais mimosa e superior à capacidade dos outros oficiais”.

Também diz Lima Cerqueira, falecido 27 de Setembro de 1808, em seu testamento (5 de Maio de 1807), no Livro de Óbitos da Matriz de Nossa Senhora do Pilar desta cidade, de 1796 a 1811, às fls. 452v. 453 e 453v. o seguinte: “Declaro que os Mesários da Venerável Ordem Terceira de São Francisco desta Vila, quando quiseram edificar a mesma Capela da dita Ordem foram pessoalmente buscar-me a Vila Rica donde me achava, e chegando a esta Vila me empreitaram para ser Mestre da dita obra, que de fato fui e a pus no estado em que se a acha”.

Entretanto, técnicos (entre os quais, há pouco, o notável Dr. Eduardo Tecles) e entendidos acham que, ante a semelhança desta obra com as que em Ouro Preto são, sem dúvida, devidas ao prodigioso escopro do grande escultor patrício, não há negar seja ele o autor da portentosa relíquia.

O que é incontestável, é que Lima Cerqueira, que fizera igualmente o ofício de arquiteto desta igreja, tirando novas plantas e novos desenhos, fora o grande mestre da mesma e que ele bem como os artífices Luiz Pinheiro de Souza, José Maria da Silva (termo de 1785 citado) e Aniceto de Souza Lopes (termo de 3 de novembro de 1809 do mesmo livro), positivamente, deixaram na execução deste formoso templo o traço inapagável de seu gênio.

97. Como consta do Livro 2.° da despesa, fls. 165, trabalharam na talha deste último altar, já em 1827, os artistas Jerônimo da Assunção, João Alves dos Santos e seu filho Carlos José dos Santos.
98. Transcrevemos aqui, na bela versão de Lincoln de Souza, a encantadora lenda relativa à majestosa imagem do Senhor do Monte Alverne:

“A mesa da confraria da irmandade de São Francisco de Assis reunira-se, pela segunda vez, na casa da respectiva Ordem, afim de deliberar a respeito de uma imagem do Senhor de Monte Alverne, a ser colocada no altar-mor da referida igreja.

Tomando parte na assembleia brasileiros e portugueses, por um natural impulso de patriotismo, queriam os primeiros que a imagem fosse esculpida aqui; os segundos, em Portugal.

Ainda dessa vez não foi possível acordo, ficando o caso para ser discutido em outra assembleia.

Eis senão quando, à casa da ordem, foi dar um peregrino, desconhecido da cidade, e que, à míngua de recursos, pedia pousada por uma noite. Atendido pelo encarregado, foi-lhe destinado um aposento no porão, onde ele depressa se acomodou, fechando a porta à chave. Não trazia nenhuma bagagem, nem sequer o simples bornal, nada.

No outro dia, ninguém o viu. O quarto estava fechado. Nem uma pequena abertura de janela, arejando-o. Não quiseram incomodá-lo; talvez estivesse muito cansado aquele pobre velhinho de barbas de neve. Ao segundo dia, porém, o quarto continuava fechado, completamente. Como desde que chegara não o viram sair uma vez sequer, nem ouviram nunca o mínimo ruído lá dentro, suspeitaram que ele houvesse adoecido a ponto de não poder erguer-se do leito, ou mesmo que tivesse morrido. Já inquietos, então, bateram à porta. Silêncio absoluto. Tornaram a bater, com violência, depois. Nenhum rumor, nenhum sinal de vida. Forçaram a porta: estava fechada a chave. Certos já de um sombrio acontecimento, resolveram arrombá-la. Para realizar o ato, chamaram a polícia, testemunhas, – e, ao primeiro golpe do machado, que um soldado vibrara, a fechadura saltou. A escuridão no interior era quase completa. Abriram imediatamente as janelas: O misterioso peregrino havia desaparecido, e, em seu lugar, uma imagem do Senhor do Monte Alverne, de tamanho natural, pregado à cruz encheu de pasmo e de deslumbramento a todos os presentes, tal a sua perfeição maravilhosa.

Acreditou-se logo que o peregrino não era senão um santo que realizara aquele milagre. A nova correu célere pela cidade. De todos os pontos, numa sagrada romaria, vinha gente ver a imagem, que, poucos dias depois, foi transportada, com grande solenidade, para a igreja de São Francisco de Assis, onde até hoje se acha, no respectivo altar-mor”.


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